escólio João Alves Matos · CRP 03/13780

Como trabalho

O que chega a uma sessão raramente chega com nome preciso. Chega como incômodo, como tensão acumulada, como um padrão que é reconhecido mas ainda não compreendido, como distância entre o que se faz e o que se quer, ou entre quem se é e quem se deseja ser. Às vezes chega com nome - diagnóstico, padrão identificado, queixa conhecida - e ainda assim não se entende. Uma das primeiras funções do trabalho é dar contorno ao que chegou disforme; fazer com que os nomes sirvam ao entendimento - não o contrário.

Minha formação como Psicólogo é de um Analista Comportamental Clínico: o que me interessa é o sintoma como informação sobre um padrão mais largo - o que ele diz, e sobre o quê. Um padrão tem história: aprendida, fortalecida, sofisticada, às vezes funcional durante muito tempo antes de produzir incômodo. Entender como ele opera, em que contextos aparece, o que o mantém e o que tende a interromper: isso é o núcleo do trabalho.

A sessão é o lugar onde essa leitura acontece. Não há roteiro fixo e nem protocolo de fases. Há uma direção: o entendimento gradual do padrão e de como ele se relaciona com o que importa para quem o carrega. Às vezes o processo exige que o incômodo seja atravessado antes de ser compreendido.

O cliente traz os contextos e os transformamos juntos em histórias. O caminho se constrói a partir delas, do que aparece, dos elementos da história que ainda não tinham nome. Perguntamos, propomos hipóteses, questionamos o que por vezes parece óbvio, curiosos e devolutivos sobre o que notamos.

Aqui não me interessa a técnica como resposta imediata ou diagnóstico como destino em si mesmo. Diagnósticos têm uso: organizam informação, orientam leitura clínica. Mas raramente respondem à pergunta que importa: por que esse padrão, nessa pessoa, agora? Essa pergunta exige mais tempo e mais especificidade do que uma categoria clínica consegue oferecer.

O que organiza o processo são os valores - no sentido de o que move essa pessoa, o que dá direção à vida quando a vida pede, antes de qualquer prescrição moral ou meta externa. Parte do trabalho é distinguir o que se faz por anseio genuíno do que se faz por evitação, por hábito, ou por uma história que ainda não foi lida com clareza suficiente, e examinar isso à luz do que essa pessoa considera - uma vida que vale a pena. Essa distinção raramente é rápida. E o desconforto de fazer essa leitura honesta é, muitas vezes, parte inevitável do processo: não um efeito colateral a minimizar, mas o preço justo de um exame feito com honestidade.

Atendo de forma individual, presencialmente em Salvador ou por videochamada. A frequência habitual é semanal. Dúvidas sobre como funciona o primeiro contato e outras questões práticas estão nas Notas.


O que segue é dirigido a meus colegas (psicólogos).

Supervisão

A supervisão me importa, inclusive como supervisionando que sou. O espaço de supervisão não é apenas para "o caso", é para a perspectiva sobre os padrões do terapeuta no encontro com o seu cliente.

A revisão técnica de casos tem e sempre terá seu lugar. Não vamos negar que a conceitualização do caso é imprescindível - tanto que é necessária como objetivo a servir ao autoconhecimento do cliente. Apenas, para a supervisão, é contexto necessário mas não suficiente para a avaliação do repertório técnico, ético e relacional do terapeuta.

O desenvolvimento do estilo terapêutico de cada psicoterapeuta envolve o enquadramento de sua competência técnica dentro de uma reflexão que é ética: tanto a respeito de qual é o papel desse psicoterapeuta diante de seu cliente, quanto de quais são os seus valores que qualificam seu estilo próprio de clinicar.

Me interesso pelo que acontece sob a pele do terapeuta quando o cliente o confronta com determinado tema, quando o vínculo exige algo que o terapeuta não tem fácil acesso, quando o padrão clínico do cliente ativa um padrão pessoal do terapeuta que até então não tinha nome. Esse é o terreno menos mapeado de nossa formação e, na minha experiência, razoavelmente importante para o nosso trabalho.

Dentro desse terreno, ao darmos nome, damos forma. É o papel da linguagem e da cognição humanas na transformação de função do que é descrito, funcional-contextualmente falando. Com ela buscamos aumento do que é admirável para cada terapeuta: seu estilo próprio e genuíno, sua relação com cada cliente, sua reflexão ética sobre o próprio trabalho e, como contexto de construção, também sobre teoria e técnica. Esse exame não é ornamental: é o que impede que valores não examinados do terapeuta operem - silenciosamente - no vínculo.1 A evidência nos informa sobre o que é eficaz no contexto circunscrito a um estudo; não nos diz, porém, a que nos referimos quando discutimos eficácia e efetividade no setting clínico. Essa pergunta pertence ao campo da ética, e raramente recebe o tratamento que merece.2

A base é analítico-comportamental: TAC, ACT, FAP, BA são modelos que informam a leitura, tanto do caso quanto do supervisionando. A pergunta que organiza o processo é funcional: o que está acontecendo aqui, entre esses dois, e o que o terapeuta está fazendo com isso?

O que nos orienta é um objetivo: autoconhecimento dotado de reflexão ética em nosso papel enquanto terapeutas. Não acredito nisso como um slogan, acredito como posição. A técnica orienta procedimentos; o diagnóstico organiza informação. Nenhum dos dois responde à pergunta que a supervisão precisa sustentar: em que direção deveria ir a mudança, e por quê? Essa pergunta não tem resposta empírica. Tem resposta ética, e exige que o terapeuta a examine continuamente, de preferência num espaço onde não está simultaneamente tentando conduzir um processo clínico. A supervisão é esse espaço. Não porque seja confortável fazê-lo ali, mas porque é o único lugar onde a pergunta pode ser feita sem a pressão imediata do vínculo. O terapeuta que não a faz não deixa de respondê-la: responde, apenas, sem perceber.

As supervisões ocorrem em grupo ou individualmente, presencialmente ou por videochamada. A definição das especificidades respeita o que faz sentido para o momento, estilo e valores de cada colega.

1 Guilhardi, H. J. - Com que contingências o terapeuta trabalha em sua atuação clínica? In: Sobre comportamento e cognição, 1999. Link

2 da Silva Ferreira, T. A. et al. - Qual o objetivo da Análise do Comportamento Clínica? Acta Comportamentalia, 2017. Link

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