escólio João Alves Matos · CRP 03/13780

escólio

23/06/2026


Era importante para mim que este site tivesse um nome coerente com o que busco ser em consultório e fora dele; nomear costuma ser a parte mais difícil de qualquer projeto construído a partir de um propósito. Sabia o que eu queria dizer com o site, mas toda vez que pensava em assiná-lo com “João Alves Matos”, alguma coisa parecia errada - como se eu estivesse pedindo ao leitor que olhasse para mim antes de olhar para o que eu tinha a dizer. Foi procurando uma palavra que resolvesse esse desconforto que encontrei escólio. Não inventei a palavra, nem a postura que ela nomeia; o que ela provocou foi o reconhecimento de uma postura que eu ainda não sabia nomear.

Essa postura se estabelece numa diferença que sinto há mais tempo do que sei colocar em palavras: não a diferença entre as definições, mas entre as funções que comentário e opinião assumem no uso cotidiano. O comentário, em seu uso corrente, tem um apelo brando: mantém aberta a possibilidade de crítica honesta, deixa o argumento respirando, livre para ser retomado por quem o ouviu. É essa mesma abertura que promove um movimento reflexivo em quem o ouve, ou lê. Essa brandura, no entanto, tem um custo que conheço bem. Ao comentário se atribui, com frequência, a suspeita de hesitação, de neutralidade disfarçada de cuidado - a função de quem não teve, ou não escolheu ter, a força de concluir.

A opinião não paga esse preço. Seu uso cotidiano presume uma prescrição implícita (diz não apenas o que é, mas o que deveria ser), e é essa presunção que lhe dá peso. Ela ocupa cada vez mais espaço, nas telas, nas relações, nos consultórios. Não é privilégio dos irresponsáveis: mesmo quem fala com cuidado pode se tornar centro de gravidade, e a audiência que se forma em torno passa a orbitar a pessoa, não mais o problema que a trouxe até ali. Há algo de compreensível nisso: dá forma ao que é difuso, oferece destino quando estamos perdidos, produz a sensação de que o assunto foi resolvido. Mas sensação de resolução não é resolução - e é exatamente a distância entre as duas que a psicoterapia se ocupa em percorrer. O problema não é a opinião em si, mas tê-la como único gesto disponível diante do outro. A força que convence é a mesma que encerra.

Reconheço esse desejo em mim antes de reconhecê-lo nos outros. Por muito tempo desejei - por vezes ainda desejo - o peso da opinião com a discrição do comentário: a força de quem conclui, sem o ônus de ocupar o centro. Foi comentando esse desejo, não encerrando-o, que percebi a palavra que faltava.

A palavra era escólio. Antes de me apropriar dela, porém, ela já carregava uma tensão entre duas tradições que não se resolveram totalmente uma na outra. Há a tradição que se contenta em elucidar: o escoliasta que anota para preservar, que compila com humildade anônima, sem nunca assinar o que escreve.1 Há também a tradição que dialoga: o escólio que interrompe a frieza de um sistema para se dirigir ao leitor, que carrega afeto dentro do rigor.2 Não escolhi entre as duas; encontrei, na palavra, espaço para as duas ao mesmo tempo.

Foi por isso que escolhi escólio, e não comentário ou opinião. O escólio mantém o texto principal como centro - sua elucidação, feita com deferência, é o mesmo gesto generoso do comentário. Mas não carrega a hesitação que pesa sobre ele: o escoliasta sabe o que está fazendo, e essa certeza é assertiva sem precisar ser uma opinião disfarçada. O escólio tem a intencionalidade que dá força à opinião, mas recusa o lugar que a opinião reivindica para si - não desloca o centro de gravidade para quem anota, não retira do outro a chance de continuar pensando, de continuar sendo autor do próprio texto. Não encerra o outro.

No consultório, essa escolha de palavra deixa de ser meramente estética e se torna postura intencional. O cliente chega com um texto que carrega há anos - às vezes décadas - e raramente sabe colocá-lo em palavras precisas, ou que façam compreensível o seu sentido para si e para o outro. Pode ser um casamento que parou de fazer sentido, uma carreira que pesa mais do que sustenta, uma ansiedade que acorda antes das quatro da manhã sem aviso. Esse texto não está pronto: forma-se também na sessão, e cada palavra que devolvo participa dessa formação. Sou, nesse momento, leitor e escoliasta - e nunca apenas o segundo, porque ler já é intervir.

A ideia não é apresentar aqui uma simples figura de linguagem. A própria linguagem é, para o terapeuta, o maior instrumento de trabalho, na medida em que a relação construída com o cliente lhe dá esse alcance. A fala já modifica o que toca: aproxima sentidos antes distantes, enriquece vínculos que pareciam simples, muda o que uma palavra ou uma lembrança passam a significar para quem as carrega. Dizer isso é dizer que não existe comentário neutro dentro do encontro clínico. A nota à margem altera a página por inteiro. Escoliar, no consultório, não é gesto de humildade discreta: é posição que exige clareza sobre o bem que persegue - um compromisso ético declarado, não suposto.

O compromisso, então, não é com um diagnóstico, nem com uma técnica: é com o repertório do cliente, com o que ele já está tentando escrever sobre a sua própria vida. Escoliar como um psicoterapeuta é isso - ficar dentro do texto, junto a quem o carrega, e ajudá-lo a lê-lo com olhos que ainda não tinha, para que ele mesmo escreva com a clareza que as pequenas notas trouxeram, sem nunca assinar no lugar dele. O cliente permanece autor. O terapeuta permanece quem anota. A mudança que me importa não é a que resolve, mas a que constrói sentido para o texto continuar sendo escrito.

Por isso: escólio - o nome, a postura, o exercício constante de escoliar antes de opinar.

  1. 1 A tradição filológica do escólio nasceu nas margens dos manuscritos gregos e latinos: anotações para elucidar passagens obscuras sem alterar o texto principal.
  2. 2 A tradição filosófica, presente sobretudo em Espinosa (cf. Baruch de Espinosa, Ética, trad. Joaquim de Carvalho, São Paulo, Abril Cultural, 1979, coleção Os Pensadores), usa o escólio como o momento em que o autor interrompe a impessoalidade do sistema para dialogar diretamente com o leitor.