escólio
30/06/2026
Vejo-me pensando sobre a função das coisas com curiosa frequência. Isso ocorre diante de vários objetos, e quando noto, já estou lá: atravessei o portal de minhas próprias cognições e a reflexão me toma – acho que é notório para quem me conhece, aquela minha expressão de que estou nesse outro plano. São músicas, filmes, séries, leituras, conceitos, experiências: tudo se torna objeto de minha obsessão pela função do que vivencio.
Recentemente, objeto recorrente dessas minhas obsessões é a diferença que experimento com o comentário e a opinião, dentro e fora do consultório, nos discursos que faço e nos que recebo. Fico em uma espécie de esporte reflexivo sobre o que diz sobre minha postura, sobre a postura do outro, sobre o que gostaria de ver em mim. A distinção que percebo não é apenas de tom ou intensidade: é funcional. Noto no comentário o respeito ao texto original, ou ao objeto alvo dele, como o centro de gravidade do argumento: descreve, contextualiza, abre à reflexão, ainda quando há crítica. Diferentemente, a opinião parece deslocar esse centro de gravidade para quem a manifesta: normatiza, resolve, fecha. E quando o texto sobre o qual alguém opina é uma história, sofrimento, conjunto de valores ainda em formação, o fechamento não recai apenas sobre uma ideia. Recai sobre uma pessoa.
Como psicólogo, me pergunto com alguma regularidade, ao fim de certos dias ou sessões: hoje você foi mais um opinador ou um comentador? Desde cedo quis o status do opinador e a discrição do comentador. Não pretendo negar o primeiro desejo; tenho opiniões sobre as coisas e sobre as experiências com elas, e não me falta disposição para sustentá-las. Assumo, como parte de meu esforço por reconhecer minha humanidade, que ser o centro de gravidade é tentador para mim. Mas reconheço que agir a partir desse desejo, sem exame, fecha o que poderia permanecer aberto.
O comentário que faço sobre esse desejo é de que saber que ele existe é importante. Saber sobre o que me motiva direciona minha atenção, me faz flagrar esse desejo em cada colocação. Observo e anoto minhas personas do opinador e do comentador. Quem me torno pelo efeito delas me importa; por isso o comentário sobre o desejo importa mais que a opinião sobre ele.
A opinião que tenho sobre esse mesmo fato é outra coisa. Ela é carregada de afetos, e parte de mim diz: “você não deveria desejar tal posição”. Essa asserção – intrusiva, um pouco hostil – me convida a fugir de mim e do meu próprio desejo. Instrui-me a não ser desejante. Gera um incômodo disforme, sem palavras que lhe atribuam fronteira; mas apenas até que o comentário venha.
O comentário chega sempre de forma mais branda: “talvez seja isso”, “pode ser aquilo”, “acho que eu nem saiba bem o que seja”. É essa abertura, paradoxalmente, que me ajuda a dar forma ao que antes era apenas incômodo, e a colocar esse afeto dentro de contornos um pouco mais claros: constrangimentos, frustrações, anseios, valores. O comentário me leva a refletir sobre o incômodo, não a encerrá-lo. Talvez por isso parte de mim me diga que não deveria querer ser o opinador: me entristeceria ser a pessoa que encerra o desejo, o outro, o ser. E comentando essa experiência, construo as fronteiras que delimitam um valor que prezo, e que por vezes fica pelo caminho: a humildade.
Não a humildade como ausência de posição. A humildade como uma recusa de encerrar o outro.
Penso, e ironicamente opino, que a opinião ocupa cada vez mais espaço, nas telas, nas relações, nos consultórios. Há algo de compreensível nisso: ela dá forma ao que é difuso, oferece destino quando estamos perdidos, produz a sensação de que o assunto foi resolvido. O problema não é a opinião em si, mas quando se torna o único gesto disponível diante do outro.
O que me inquieta é que esse deslocamento não é privilégio dos irresponsáveis. Bons profissionais, pessoas de genuína inteligência e cuidado, admiráveis em seu próprio estilo, tornam-se centros de gravidade: constroem audiência em torno de si, e a audiência passa a orbitar. A influência, quando se torna identidade, inverte a relação. O texto do outro deixa de ser o que importa. O que importa é a posição de quem lê, ou melhor, de quem opina. E com isso, mesmo o cuidado bem-intencionado pode repetir, sem perceber, o gesto que deveria recusar: encerrar quem veio em busca de ser lido.
Esse movimento não poupa o consultório. Quando isso acontece nesse espaço, o incômodo do cliente deixa de ser texto a ser lido e passa a ser problema a ser fechado. E com o fechamento do problema, fecha-se também, muitas vezes, quem o carregava.
Foi enquanto procurava um nome para esta página que encontrei a palavra. Não queria colocar o meu nome, algo nessa escolha me parecia errado para o que eu queria dizer, ou a postura que eu queria assumir – o centro de gravidade seria eu ou o que colocaria em palavras? Fazia um levantamento de conceitos que comunicassem valores, posturas, uma certa forma de estar diante do outro, quando este apareceu: escólio. Parei nele por um tempo, comentei com alguém que amo. Sou de me entusiasmar com conceitos, mas desta vez havia algo diferente – era mais reconhecimento que novidade. Um nome para uma postura que já tentava cultivar sem ter ainda como chamá-la.
O escólio, ao menos em sua concepção clássica, é uma anotação feita à margem de um texto. Surgiu nas bordas físicas dos manuscritos antigos, onde havia espaço para que um comentador colocasse em perspectiva o que estava escrito sem alterar o texto.1 O escoliasta não reivindicava a autoria da obra. Existia para torná-lo mais legível, de fora, com cuidado, sabendo que a nota não é a obra.
Mas há uma tensão no conceito que me importa. Há uma diferença entre o escoliasta que anota para preservar e o que anota para tornar o texto habitável, entre quem compila a erudição dos outros com humildade anônima e quem interrompe a frieza de um sistema rigoroso para dialogar, polemizar, aproximar.2 O terapeuta não é nem um nem outro inteiramente. Deve conhecer o texto com alguma profundidade, não é um compilador neutro. Mas não usa esse conhecimento para construir um sistema sobre o cliente. Insere suas considerações dentro do texto – no interior do encontro – para que o autor consiga lê-lo com outros olhos. E o cliente está numa posição singular: é autor e leitor ao mesmo tempo. É ele quem carrega a obra. O terapeuta é quem anota.
O que define o lugar do escoliasta, em qualquer tradição, é saber que o texto principal não lhe pertence, e que é exatamente esse saber que lhe dá perspectiva. Se ele confunde a nota com a obra, perde os dois.
No encontro clínico, porém, o texto frequentemente não estava lá antes. Forma-se nele, e as anotações do terapeuta participam dessa formação. O escoliasta clínico está dentro do texto que anota, e é essa consciência, não uma neutralidade impossível, que torna a escolha de onde colocar o centro um gesto intencional.
O escólio para mim é funcional: uma anotação intencional sobre o texto que o amplia, o faz respirar, o recontextualiza com deferência. Funciona como aquele comentário que não encerra, que não desloca a atenção do texto ou do lugar de seu autor. Há, todavia, uma diferença que sinto. Experimento um estranhamento ao dizer que o que faço é simplesmente comentar algo: aos meus próprios ouvidos, soa como hesitação ou neutralidade – parece não carregar a intencionalidade, assertiva e eticamente direcionada, que o gesto pretende. O escólio se apresenta de outra forma: é a nota com a intencionalidade, enquanto gira em torno do texto, do autor, e não do escoliasta. Não porque o escoliasta seja neutro, mas porque sabe que não é, e escolhe, por isso, onde coloca o centro.
O espaço que a psicologia clínica pode oferecer é precisamente para os escólios que colocam em perspectiva os anseios e as dores: não diagnóstico como destino, não técnica como resposta, mas compreensão e reflexão ética sobre quem se é – daí vêm as mudanças mais significativas. Um lugar onde o incômodo não precisa ser suprimido para que o outro possa continuar existindo. Onde o desejo tem permissão de ser examinado sem ser domado. Onde ser é anterior a dever ser.
Qual é a postura que quero assumir diante do outro? É a indagação para a qual tenho escólio com intenção clara, não conclusão. Mas sei que me entristeceria ser a pessoa que encerra. Que oferece apenas resolução onde também poderia oferecer perspectiva. Que opina onde poderia escoliar.
- 1 O escólio, na tradição filológica, surgiu como anotação nos manuscritos gregos e latinos – inicialmente em volumes separados, depois nas margens físicas dos códices medievais. Sua função era elucidar passagens obscuras sem alterar o texto principal.
- 2 Há usos do escólio que vão além da filologia. Em filosofia, frequentemente o escólio é o momento em que o autor interrompe a impessoalidade de sua tese para dialogar diretamente com o leitor – uma voz afetiva dentro de um sistema frio.